Cmte. Levorato: "É a aviação que escolhe a gente, está no sangue"

Para essa edição do 'After Landing' da #ASAGOL, convidamos o Cmte. Rafael Levorato, colecionador e apaixonado por aviação. Confira a entrevista completa:

Bate-papo via videoconferência com o colecionador e piloto de avião Cmte. Rafael Levorato e o jornalista da ASAGOL, Victor Peixoto.

Entrevista completa com o Comandante Levorato


ASAGOL: Cmte, para começar, fale um pouquinho de você, seu nome completo, idade, profissão, por onde você anda...


Cmte. Levorato: Muito bem. Eu me chamo Rafael Levorato, sou de Marília, interior de São Paulo, e me formei com 18 anos como piloto privado. Logo em seguida eu segui a carreira tirando as carteiras de piloto comercial e MLTE/IFR, no qual voei 4 anos para aviões particulares, para um proprietário (fazendeiro) e depois, com quase 24 anos, eu entrei na empresa aérea GOL, voando como copiloto lá por quase 9 anos, do 737-NG, e já estou na função de comandante há 6 anos nessa mesma empresa, voando ponte aérea, voando doméstico e fazendo algumas rotas internacionais.

ASAGOL: Para começar, gostaríamos de saber o seguinte: da onde surgiu a paixão pela aviação?


Cmte. Levorato: Bom, eu costumo falar que a aviação vem de Deus. Normalmente nós não escolhemos a aviação. Deus que já nasce com esse propósito para a gente, porque é uma coisa fantástica... 99,9% dos pilotos, das pessoas que são envolvidas na aviação, realmente amam essa profissão. Então, é a aviação que escolhe a gente, não é a gente que escolhe a aviação, é uma coisa divina mesmo. Eu comecei a colecionar avião com 14 anos e, consequentemente, já olhava o aviãozinho e falava: "Nossa...", já brincando e assim foi. Com 14 anos eu já sabia o que queria ser. Nunca tive dúvidas disso. E cada voo, cada realização profissional é um sonho realizado. Então, é aviação que escolhe a gente, está no sangue.


ASAGOL: Cmte, como já falamos nos bastidores, você está fazendo parte do quadro 'After Landing', onde você conta um pouco da sua vida fora da cabine, fora do avião. Então, conte pra gente o que você faz, o que você coleciona.

Cmte. Levorato: Bom, hoje eu me considero um colecionador de aviões em miniatura, com pouco mais de 400 em casa.

Não sou plastimodelista, eu sou colecionador. Compro aviões em ferros, que são os chamados "diecast"... 30% da minha coleção são esses, que a gente já comprou montados, e o restante são do plastimodelismo. Eu tenho um grupo de amigos, muito bons montadores, a grande maioria trabalha na área, são comissários, são pilotos, comandantes, copilotos... E eles têm essa habilidade para montagem. E eu tenho habilidade para colecionar. Sempre me perguntam: "Como você não gosta de montar?", mas isso também requer muita habilidade, muita paciência. Eu gosto de comprar o kit e eu entrego para o montador, o plastimodelista, que vai montar. Enquanto ele está montando o avião, eu estou estudando o tipo de avião, que é esse que está sendo montado, a operação dele no mundo, no país. Escolho o esquadrão, começo a estudar sobre esse esquadrão, porque normalmente a maioria dos meus aviões vão para a exposição. Então, eu gosto de quando ele está na exposição, a pessoa vem me perguntar e eu falo que esse avião voou na época tal, na guerra tal...

ASAGOL: Ou seja, você não só compra, você gosta de estudar realmente o modelo. Você gosta de saber a história dele, muito legal!


Cmte. Levorato: Gosto de saber a história dele, a operação dele nas guerras, os que são de guerra, o tempo de operação nas empresas aéreas. Então, enquanto o plastimodelista está montando, estou me especializando em cada modelo que tenho. Cada avião tem sua história, para mim. Isso é muito legal, é o que acaba me enriquecendo nos conhecimentos dos meus modelos. E aí, quando o plastimodelista me entrega, a gente leva para a exposição, coloca o nome dele no avião, não falo que fui eu... E quando esse modelo ganha uma medalha, se o plastimodelista quiser ficar com a medalha, para mim não tem problema nenhum. Mas a maioria deixa a medalha com o avião. Igual o exemplo desse aqui, ele já ganhou um ouro, em Campinas.

Essas medalhinhas são simbólicas, não têm valor financeiro, não têm essa disputa de financeiro, é simplesmente fomentar a aviação. Então, é uma satisfação para o plastimodelista e no meu caso, dono do avião, ver que ele está nesse nível de perfeição em comparação ao avião que a gente está imitando.


ASAGOL: Uma curiosidade, Cmte: é um hobby caro? Quanto custa mais ou menos uma maquete? Tem alguma média de valor?


Cmte. Levorato: Olha, é um hobby que para você montar um, acaba não sendo caro, mas se você quiser bastante, acaba aumentando o valor. Um avião na escala 1:48, que é o mais montado, vamos dizer assim, em média, uns 40cm, ele vai variar em torno de R$300 a R$500 o kit. Lembrando que a gente sempre compra fora. São empresas chinesas, alemãs, muitas da Ásia. Então, esse é o valor. E os kits maiores, que são na escala 1:32, porque tem bastante, um kit desse já vai variar em torno de uns R$800 a R$1000. Então, têm esses valores um pouco mais elevados.


ASAGOL: Esse valor é para o plastimodelista ou é só a matéria-prima mesmo?


Cmte. Levorato: No meu caso, o plastimodelista, eles são meus amigos, mas eu também pago para eles porque, lógico, que têm o o tempo deles, têm os equipamentos que usam, as tintas, então, acaba ficando quase o dobro do valor. Se eu pago R$500, normalmente você vai pagar R$400 a montagem. Dependendo do modelo R$1000 - R$1200 a montagem. E é um valor extremamente justo, não é caro. Porque um modelo que você compra na escalada 1:32, ele chega a quase ter 800 peças, 550 peças, algumas ele tem que usar praticamente uma lupa. Então, tem que se valorizar sim, porque

o plastimodelista é um artista, ele não é só o montador de pecinhas que ficam se encaixando. É um artista que faz com muito amor, muita habilidade e muito carinho. Então, tem que ser valorizado sim.

ASAGOL: Resumidamente, pra gente ter uma ideia, sairia mais ou menos entre R$1500 - R$2000. Certo?


Cmte. Levorato: É. Um avião que a gente escolhe e fala que vai levar para a exposição... Então, muitas vezes você compra até o decalque, que são as figuras que a gente cola no avião, separado do próprio avião. Então, são os chamados decalques, os acessórios. Eu tenho aviões aqui, como esse T-47, escala 1:24, que a gente comprou o decalque na República Tcheca e alguns acessórios também na Europa.

Chega a um valor de quase R$2500. Mas são aviões específicos para exposição

Aí tem uns que você acaba usando material que vem do próprio avião, tornando mais barato o modelo.


ASAGOL: Legal. Ótima explicação, ficou bem claro. E Cmte, qual é o tamanho da coleção agora?


Cmte. Levorato: Hoje eu tenho um pouco mais de 400 aviões. Esta é uma das 4 prateleiras que eu tenho aqui na minha casa. Então, eu tenho em torno de 400 aviões, já praticamente pouco mais de 20 anos colecionando já. E eu não consigo me desfazer de nenhum, é um filho que ganho e é tratado com muito carinho.

ASAGOL: É o que você falou. Cada um tem uma história, né?


Cmte. Levorato: Sim, tem uma história. É um amigo especial que me presenteia, é um amigo que fala: "Olha, esse avião eu quero montar pra você". Então, tem sempre um carinho... Todo avião tem o seu carinho, todo avião é muito bem cuidado.


ASAGOL: Cmte, qual a relação do seu hobby com a sua família? Eles aceitam ou às vezes tem alguma "encheção"?


Cmte. Levorato: É muito legal. Meu pai no começo achava estranho porque ele falava assim: "Nossa, não vai ter lugar pra pôr". Um dia ele chegou com o avião que trouxe para mim, de Marília, e falou: "Filho, por que você não pega um e doa um?" Aí eu falei: "Pai, eu não tenho essa maturidade toda". Mas eles adoram, eles adoram. Principalmente hoje que eu faço exposições, principalmente em Marília, no interior de São Paulo. A gente faz uma exposição, então eles participam, eles veem que meu círculo de amizades é praticamente, quase 100%, do plastimodelismo. São pessoas muito especiais, então, eles adoram muito. A minha namorada adora. Eu cheguei com aquele avião ali, o AB-52, enorme, eu falei assim: "Onde que eu vou colocar esse avião gigante?". Aí ela virou e falou: "Ué, coloca um prego e pendura ele na parede". Agora tá ele lá na parede.

ASAGOL: Da onde surge também a motivação de continuar colecionando, de continuar estudando, de continuar indo atrás?


Cmte. Levorato: Ah, é uma coisa mágica, né? Quando estava na função de copiloto eu voava com um comandante e ele falava assim: "Nossa, eu voei num DC-10", aí você imaginava e chegava em casa apaixonado já pelo DC-10. E eu pensava: "Ah, agora eu quero ter um DC-10 da Varig, um DC-10 de outra empresa" e aí você vai se apaixonando. Por exemplo, agora a moda é o Gripen, da FAB. Então, hoje é um avião que todo mundo está querendo ter. Aí você começa a querer ter os aviões que estão na moda, ou que você é apaixonado. Eu gosto muito do T-27, da Esquadrilha da Fumaça, então eu tenho a coleção inteira da Esquadrilha. Não basta só ter um, você quer ter a pintura da década de 80, depois dos anos 2000. Aí muda o avião, o A-29, você vai acompanhando também, né? Então, tem muitas opções. A Segunda Guerra mesmo, meu Deus, é uma infinidade de modelos e versões de aviões que não caberia num museu.


ASAGOL: Você tem algum xodó, algum preferido?


Cmte. Levorato: Eu tenho dois xodós. Esse aqui é o Fokker-27, da TAM. É que quando eu era adolescente, em Marília, ele ia muitas vezes, 4 vezes por dia. Então, ele marcou muito a minha geração. Eu via esse avião pousando e fazia muitas orações pedindo para que um dia eu pudesse estar num avião desses. Esse avião marcou muito a minha infância. O outro é o T-27 da Esquadrilha da Fumaça, está aqui também, os famosos "vermelhinhos". Esse aqui também me marcou... Começou em 83 na Esquadrilha, ficou com essa pintura até 2000, 2001, e marcou muito a geração dos quase "quarentões". Então, são aviões que marcaram muito a minha infância, né? Um avião comercial e um avião militar, da Força Aérea.

ASAGOL: Cmte. só pra finalizar - o que seu hobby mudou em sua vida? O que você seria sem ele?

Cmte. Levorato: Ah, esse hobby me complementa muito, né? Momento de distração, onde eu chego... Apesar que eu saio de um avião, entro em casa, e tem mais avião, é diferente. Eu separo o profissional do hobby. É muito gostoso, me marcou muito. Principalmente agora que tenho um grupo que participa de exposições. Também marcou muito para mim, principalmente quando chegam crianças nessas exposições... Eu dou muita atenção a elas. Os plastimodelistas falam assim: "Nossa, será que vai ser um futuro plastimodelista? Um futuro colecionador?". Aí eu já falo: "Mais que isso, ele pode ser um futuro aviador, comissário, um piloto, um piloto militar". Então, eu acho que é muito importante você fomentar a aviação com esse hobby. Levar um avião para uma criança ver, talvez ela pense: "Nossa, eu quero montar mas eu também quero um dia estar pilotando esse avião". E eu me vejo assim, porque quando eu vi bem o primeiro avião do meu tio, eu já vivia lá dentro pilotando. E hoje eu faço da profissão, do hobby, a minha vida. Então, eu já vou mais além.

Quando eu vejo uma criança, eu vejo que ali pode ter um futuro aviador, então isso me estimula muito.

ASAGOL: Um amor passado de geração por geração?


Cmte. Levorato: Ah, eu acho que isso é o mais importante. Tudo que se faz com amor só reflete amor, só reflete alegria e energias boas.

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