Setembro Amarelo: precisamos falar sobre isso!


Edição nº 5

Cms. Mauro Matias


Pilotos e Comissários são os responsáveis pelas vidas que transportam diariamente; aproximam pessoas, sonhos e realizações. Mas e quando a alegria de estarmos junto às pessoas que nos são importantes, dos sonhos e das realizações, se esvaem de dentro de nós?


E quando não consigo explicar ou entender o que está acontecendo, porque não tenho mais forças para desejar, planejar, lutar? Aonde isso pode parar? Será que é hora de buscar ajuda? No nosso modo de vida diferenciado, vivendo longe e no céu, encontramos algum suporte ou aviso prévio?


Sim, precisamos falar sobre o suicídio e sobre as ideias de que o mundo e a vida estão ficando sem sentido. Desde que o homem existe o ato de suicídio existe. Na antiguidade clássica era tolerado como um ato de liberdade, sendo vedado a escravos; na idade média, através de Santo Agostinho (354-430), é atribuída culpa e associado ao demônio, sendo necessário rituais de exorcismo e arcar com as consequências da ira divina (castigos) por toda a eternidade. A vida é um presente de Deus e rejeitar esse presente é contrariá-lo. (Botega, 2015). Hoje é um problema de saúde pública e uma grande preocupação dos profissionais de saúde mental.


A palavra ou o ato de suicídio não levanta dúvidas sobre o seu conteúdo e significado, a ideação sim. O conceito de ideação suicida envolve nuances, desde pensamentos passageiros de que a vida não vale a pena ser vivida até preocupações intensas sobre por que viver ou morrer. Ideias de morte podem ainda ser consequências de estados delirantes (Botega, 2015) ou de uso de medicamentos.


O caminho percorrido até o ato suicida tem algumas placas de advertência que nós precisamos entender e saber ler. Para Rorschach os indícios de que um indivíduo decide ou pode decidir levar a cabo uma conduta altamente destrutiva, precisam reunir um conjunto de fatores, onde todas as características têm que estar presentes, como elementos depressivos, elementos de isolamento, perda de controle, desajuste perceptivo (Exner e Sendín, 1999). Vejamos quais são eles:



1- Elementos Depressivos:


Autoimagem rebaixada (autoestima), tom pessimista nas ideações, nos planos e no futuro, autocrítica negativa quando usa de introspecção ou, de uma maneira didática, uma viagem para dentro de si mesmo, um si mesmo sem cor e sem perspectivas.


2- Elementos de Isolamento:


Dificuldades nas relações interpessoais, falta de vontade de participar de reuniões, encontros, grupos como religiosos, grupos familiares, grupos de colegas de turma, de escola, de vizinhos, enfim, um grupo que possa sentir a sua ausência, o seu silêncio; de conversar sobre coisas que não são da aviação. O grupo funciona como suporte em momentos bons e ruins, nos proporciona a ideia de que posso contar com alguém além de mim mesmo.


3- Desajuste perceptivo:

A realidade passa a ter uma conotação diferente do que ela realmente é. Esse desajuste está presente quando o sujeito torce percepções e capta os dados (analisa e conclui) com grandes interferências de suas necessidades pessoais (Exner e Sendin, 1999). A situação atual é tão ruim que ele enxerga negativamente o que os outros não veem.


4- Perda de controle:


Pode se entender como sendo o aumento de uma sobrecarga interna, no mundo particular da pessoa - aquele que não contamos para ninguém e, muitas vezes, nem para nós mesmos. Percebe-se dificuldades na modulação da descarga de energia com rompantes de agressividade direcionada a outros ou a nós mesmos.


5- Ato Dor:

O ato final de terminar com a própria vida é entendido, além do percurso percorrido acima, como ato dor. O ato dor é a manifestação de conteúdos internos irrepresentáveis, uma dor psíquica insuportável e que não conseguimos nomear.


6- Fatores de apoio e ajuda:


Não podemos prevenir o suicídio, mas sim as condições de sofrimento humano que levam ao desejo de se matar e que são passíveis de melhora (Botega, 2015). As estatísticas revelam que 17% dos brasileiros já pensaram em suicídio. Precisamos desmistificar que quem vai ao psiquiatra ou ao psicólogo é louco. Não! Todos nós precisamos ou podemos precisar, em algum momento da vida, de ajuda profissional; diferenciar estados de tristeza de estados depressivos é tarefa de profissionais. Se você é profissional de saúde mental, participe de treinamentos e cursos sobre avaliação e manejo de crise suicida e afaste a crença que só o medicamento ou a terapia pode dar conta; é necessário um esforço conjunto. Se você, como eu, é profissional de aviação, esteja atento aos fatores que podem nos proteger, como não se isolar do convívio de parentes e amigos, participar de instituições de ajuda filantrópicas, de grupos religiosos, do grupo de amigos da faculdade ou da escola ou mesmo de grupos de amigos do voo. O grupo funciona como elemento de proteção, apoio e ajuda.


Há outros indicativos de problemas de saúde mental quando há abuso do uso de substâncias ou álcool e insônia. Geralmente esses quadros são preditores que grandes problemas internos estão acontecendo. Não deixe de procurar ajuda nas instituições de classe quando perceber que possa ter acessado o caminho que descrevemos acima. Tristeza todos nós temos e sentimos, mas tristeza que não passa merece cuidado e apoio. Perder a capacidade de sentir prazer em fazer coisas que antes eram prazerosas, se isolar e fugir do convívio de pessoas, é típico em estados depressivos. Crer que só com esforço pessoal é possível vencer a depressão é um grande erro. Procure ajuda tão logo se perceba assim, embora a depressão não seja o único quadro patológico que pode levar ao suicídio.


Esta é a primeira vez que escrevemos sobre o setembro amarelo e sobre as questões do suicídio. Tivemos casos (sim, no plural) de suicídios em 2018 e precisamos abordar o tema, não descrevendo o suicídio e as técnicas empregadas, mas ilustrando de maneira compreensível na nossa linguagem que ele existe entre nós e que podemos contar com algumas proteções e ajuda para evitar que isso aconteça.


Referências:


Associação Brasileira de Psiquiatria. Suicídio: informando para prevenir / Associação Brasileira de Psiquiatria, Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio. – Brasília: CFM/ABP, 2014.

Botega NJ. Crise suicida: Avaliação e Manejo. Porto Alegre: Artmed, 2015.

Botega NJ, Furlanetto LM, Fraguas Jr. R. Depressão. In: Botega NJ, editor. Prática psiqui-

átrica no hospital geral: interconsulta e emergência. 4. ed. Porto Alegre: Artmed; 2017.

Exner, John E. Sendín, Concepciòn: Manual de interpretação do Rorschach para o sistema compreensivo – São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.


Mauro Matias é Comissário de Voo e Diretor de Comissários da ASAGOL. Possui formação em Psicologia, Especialização em Gestão de Recursos Humanos, extensão universitária em uso abusivo de álcool e drogas e capacitação multidisciplinar em Sono e Suicídio.

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