Desdobramentos do coronavírus sob a visão do infectologista Caio Rosenthal

Em entrevista à #ASAGOL, o infectologista Caio Rosenthal esclareceu alguns pontos que se desdobraram no decorrer da pandemia de coronavírus no Brasil. Confira o bate-bapo completo abaixo!

Íntegra da entrevista com o infectologista Caio Rosenthal.


Você achava, no começo, que o coronavírus iria tomar tais proporções?


Olha, eu sempre sou mais otimista, eu achava que não. Mas à medida em que a gente foi conhecendo e entendendo melhor essa dinâmica, à medida que a pandemia se estendeu muito para a questão política, aí a gente começou a entender que o carro ia desandar, não tinha freio.

Então, infelizmente, os rumos dessa pandemia foram outros daquele esperado.

Ou pelo menos aquele que a ciência poderia contribuir. Eu acho que, nesse sentido, a política extrapolou a ciência. Todos nós sabemos aí os desmandos, as mazelas que aconteceram e infelizmente foi tomar esse rumo tão triste e tão trágico.

A queda no número de contaminados e de mortes é um sinônimo de despreocupação? A gente pode começar a se despreocupar?


Olha, essa queda não é consistente. Os números ainda são poucos, são pequenos, eu acho que não dá para baixar a guarda. Eu acho que esse feriadão vai ter repercussão lá na frente. A gente vai ter que esperar mais uma semana para dizer se o feriadão teve algum componente de piora ou não da epidemia. O que acontece com esse feriadão? Nós não temos uma linha, nós não temos um comando, não temos uma postura governamental que possa impor um certo tipo de comportamento para os brasileiros. E os brasileiros se sentem totalmente à deriva. Não temos uma orientação, uma linha pra gente seguir. Então, virou essa bagunça, cada um faz o que acha que tem que fazer. Cada estado tem a sua independência. Cada prefeitura tem sua independência.

Não há uma norma, não há um protocolo rígido que possa nos ajudar a enfrentar essa pandemia.

Então, a coisa está totalmente banalizada, totalmente sem rumo, desenfreada, e a gente vai ver os reflexos daqui uns dias.


Na sua visão, até esse ponto da quarentena, da pandemia, a nossa sociedade se comportou bem ou ela deixou muito a desejar?

Olha, eu acho que a sociedade fez o que podia fazer. A gente, a nossa sociedade é muito heterogêneo e a gente não pode culpar o comportamento da sociedade. A sociedade, como sendo um país de muitas diferenças, muita diferença em todos os níveis sociais, culturais, a gente não pode esperar um comportamento uniforme da sociedade. E as pessoas têm que viver, têm que sair aí para vender o almoço para poder comer à noite. São muito distantes os segmentos da sociedade. Então, não dá para culpar a sociedade. Dá pra culpar sim os dirigentes, os formadores de opiniões, dá para culpar os responsáveis, ou melhor, os irresponsáveis, e a sociedade está sem rumo.

Eu não culpo o povo, eu culpo as autoridades que deveriam sim organizar e fazer cumprir protocolos no sentido de frear pelo menos essa pandemia.

As entidades de saúde conseguiriam acelerar o processo de fabricação de vacinas? Elas não poderiam pular nenhuma etapa do protocolo diante da situação?

Não! Existem protocolos muito rígidos para você fabricar uma vacina.

Não pode pular etapas em função da epidemia, mas há necessidade de altos investimentos na tecnologia. Eu acho que nesse sentido, os institutos, como o Butantã, aqui em São Paulo, o Bio-Manguinhos, no Rio de Janeiro, eles tomaram uma posição correta. Eles se adiantaram e não ficaram esperando o aval de Brasília para tomar as providências. Fizeram parcerias com quem tem que fazer, fizeram parcerias sérias, estão importando a tecnologia para montar as vacinas aqui nesses grandes centros. Eu acho que nesse sentido essas instituições agiram com independência e muito corretamente. Tanto que, provavelmente no início do ano que vem, já teremos essa vacina distribuída para a população. Apesar da sinalização de Brasília de que ninguém vai ser obrigado a tomar, isso é um erro muito grande. Não pode falar isso! Eu acho que todos nós somos obrigados, temos o dever de tomar essa vacina. É uma vacina que tem todos os componentes para dar certo. É uma vacina que realmente vai ser muito robusta em termos de resposta de anticorpo, uma vacina ensaiada, que cumpriu todo o protocolo de como se faz uma vacina... Usou tecnologia de uma maneira muito séria e a gente tem que elaborar protocolos de distribuição da vacina.

Na minha opinião, todos os brasileiros têm que tomar a vacina.

Quais vão ser os grupos prioritários, nós não sabemos, mas todos terão que tomar sim. Todos terão que tomar porque é uma vacina extremamente segura.


Após a vacinação, a gente já tem a informação de em quanto tempo o nosso corpo fica imune à doença?


Olha, ainda não tem essa resposta. Existem alguns tipos de vacinas diferentes umas das outras. Isso é um grande sucesso, porque as vacinas não são todas iguais. As tecnologias são diferentes, as produções dessas vacinas são diferentes, então, têm vacinas que seguem mais ou menos os moldes das vacinas tradicionais, têm vacinas completamente diferentes daquelas que nós conhecemos, usando carregadores de proteínas do coronavírus através de outro vírus. Existem vacinas genéticas, cuja tecnologia até hoje nunca foi aplicada. E, nesse sentido, só queria deixar o alerta, que essas vacinas são mais seguras do que as vacinas tradicionais. Porque elas são praticamente inteirinhas feitas no laboratório, então elas não têm componentes perigosos, vamos dizer assim, do coronavírus, que possam fornecer uma doença, que possam injetar alguma proteína e que, através dessa proteína, você pode ficar doente. São apenas fragmentos genéticos dos vírus. Então, é uma revolução em toda a tecnologia de vacinas.

Nesse sentido foi muito bom, porque a humanidade e os cientistas aprenderam a fazer novas tecnologias através dessa vacina e daqui para frente, se enfrentarmos novos desafios, nós teremos essa tecnologia já implementada e poderemos atuar de forma mais rápida ainda.

Casos de reinfecção pelo coronavírus são possíveis?


Olha, Victor, do jeito que você está falando parece que isso é um fato consumado, mas não é! Ainda não há provas de que existem reinfecções. Existem muitas pesquisas nesse sentido, mas ainda não se bateu o martelo dizendo que: "Pode haver novas infecções" ou "reinfecções desse mesmo vírus".

Tanto que as manchetes eram: "supostos casos de reinfecções da COVID-19".

Exatamente! Nesse sentido é que estão sendo atendidos os pacientes que já tiveram um quadro agudo há alguns meses atrás... Esses pacientes que são, felizmente, muito poucos, estão sendo avidamente estudados para saber o que está acontecendo: se há uma nova infecção ou se é resquício da infecção anterior. Quem sabe a infecção anterior, lá na fase aguda, não foi suficiente para haver uma produção de anticorpo alto, no sentido de causar uma proteção desse indivíduo para outros desafios frente ao vírus. Então, admite-se a possibilidade de que pessoas, algumas fabricam altos níveis de anticorpos e ficam imunizadas, outras não fabricam altos níveis e, consequentemente, pode adquirir a infecção outras vezes.

Tudo depende ainda do estudo da resposta desses anticorpos, que a gente ainda não tem para poder divulgar.

É provável que daqui a alguns anos a gente tenha uma nova pandemia?


O que a ciência está dizendo é que essa pandemia causada pelo coronavírus, ela adquirir um comportamento sazonal. Um comportamento igual ao da gripe, igual ao da Influenza, gripe e Influenza são a mesma coisa. Então, a gente sabe que a gripe nos meses frios vem, todo ano ela vem. No hemisfério norte nos meses frios, no hemisfério sul nos meses frios.

Por isso que a gente tem que tomar a vacina da gripe sempre.

Então, são ínfimas as modificações no vírus da gripe, que propiciam novas infecções. Parece que isso vai acontecer também com o coronavírus. A gente não sabe com qual frequência: se virá todos os anos, se virá nos anos ímpares ou anos pares, isso a gente ainda não sabe. Mas provavelmente haverão novos surtos do coronavírus e daí a necessidade das vacinas serem também anuais ou bienais, mas enfim, recorrentes, como é a vacina da gripe.

Ou seja, a gente pode ter uma nova pandemia de coronavírus mas vai ser mais fácil de controlá-la? 


Com certeza, porque a humanidade não vai ser pega de surpresa frente a um vírus completamente novo. As vacinas serão adaptadas aos vírus, aos coronavírus que eventualmente virão sazonalmente.


Doutor, você tem alguma sugestão/dica para os nossos tripulantes, para os nossos associados, realizarem no dia a dia, dentro do avião, dentro do sistema de operação?


Olha, você sabe que por incrível que pareça, o avião parece que é um meio de transporte muito seguro, no sentido de renovação de ar.


São os mesmos usados nos hospitais, né?

Isso. Estão saindo alguns trabalhos mostrando que muito poucas pessoas se infectaram dentro dos aviões. Isso é muito interessante. O que se acreditava há poucos meses que avião era, tanto que faliram e perderam bilhões e bilhões, em função do potencial perigo que seria a transmissão do coronavírus dentro de uma aeronave, hoje está se mostrando que uma aeronave, por exemplo, é muito mais segura do que andar de metrô, nesse sentido, ou do que de ônibus, de transporte coletivo. E também é interessante que as pessoas obrigatoriamente têm que usar máscara, têm que usar o álcool em gel, têm que manter, na medida do possível, o distanciamento... E é interessante que as pessoas falam pouco durante os voos. Isso é muito interessante. Então, há menos oportunidade de haver disseminação do vírus dentro da aeronave.

Então, o uso de máscara é fundamental, é absolutamente imprescindível você usar máscara durante o voo inteiro.

E não é usar máscara apenas no voo, é usar nos aeroportos, em todos os lugares, a partir do momento em que você sai de casa até seu retorno.

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