Caio Rosenthal traz novas informações sobre o coronavírus

Para sanar algumas das principais dúvidas e disponibilizar informações preciosas sobre o coronavírus, a ASAGOL realizou uma entrevista via videoconferência com o médico Caio Rosenthal, um dos mais renomados infectologistas do Brasil.



Confira a seguir a entrevista! Se preferir, você também pode ouvir a entrevista através do link: https://bit.ly/3amdvmH.


Asagol: O que é o coronavírus e quando ele foi descoberto?

Caio: Olha, o coronavírus é um vírus da família coronavírus que tem muitas espécies. Foi detectado pela primeira vez em 1960. Porém, provavelmente já estava na face da Terra há muitos e muitos séculos. O coronavírus, caracteristicamente, é um vírus que provoca resfriado nas pessoas e nos mamíferos. Tanto que o morcego é um dos prováveis vetores desse Covid-19 que a gente está vivendo agora. Então, nós, seres humanos, adultos, existe alta probabilidade de já termos tido resfriados provocados por outros coronavírus. Só que esse novo é um que foi detectado no final de dezembro, na China. Esse é novo, ele sofreu algumas mutações. Eram coronavírus que habitavam morcegos, alguns prováveis felinos talvez. Ninguém sabe direito qual foi o animal que permitiu a mutação do coronavírus para agora se adaptar ao ser humano.


Foi detectado pela primeira vez em 1960. Porém, provavelmente já estava na face da Terra há muitos e muitos séculos.

Asagol: Quais seriam as principais causas desse surgimento apontadas nesse passado recente? 

Caio: O que ocorreu no final de dezembro na China é que pessoas que frequentavam mercados que tinham as características de vender animais vivos, como cobras, coelhos, macacos, morcegos, enfim... Essas pessoas depois de alguns dias que frequentaram, ou seja, essas pessoas tinham algo em comum. Qual era o algo em comum? Era frequentar esse mercado de venda de animais vivos. E depois de alguns dias elas adoeceram. Elas apresentaram sintomas respiratórios. Febre, coriza, espirros. Muitas intensidades possíveis, alguns graves, alguns mais leves. Então, observou-se que essas pessoas tinham em comum: frequentar aquele mercado de animais vivos. Então, supõem-se que como os coronavírus em geral habitam esses animais, em especial os morcegos, supõem-se que tenha havido uma mutação do vírus que "frequentava" os morcegos para o vírus que agora adapta-se perfeitamente aos homens. Por isso que ele é chamado de novo. Porque até então esse tipo de vírus que nós estamos vivendo é completamente novo para o ser humano. O que significa isso? Que nós não temos nenhuma imunidade contra esse vírus, não temos nenhum anticorpo contra esse vírus. Ele se adaptou muito bem. Para ele, nós não apresentamos nenhuma defesa, ele não encontra nenhuma resistência quando agride o ser humano. 


Então, observou-se que essas pessoas tinham em comum: frequentar aquele mercado de animais vivos.


Asagol: Portanto, só para ficar claro... Se ele é um novo coronavírus, daqui a algum tempo também pode surgir um novo? 

Caio: Pode! Como aconteceu em 2002. A SARS, que é uma doença respiratória, também foi provocada lá na China por um vírus. Muito próximo, inclusive, a esse coronavírus que está aparecendo agora. Isso em 2002 foi chamado de SARS 1. Agora nós estamos vivendo o SARS 2. Em 2012, em alguns países do Oriente Médio, foi detectado também uma epidemia respiratória causada também pelo coronavírus. Então, isso que você está falando faz sentido. De tempos em tempos esse vírus pode sofrer uma mutação e agredir o ser humano.


De tempos em tempos esse vírus pode sofrer uma mutação e agredir o ser humano.

Asagol: Ou seja, nada impede que daqui, por exemplo, 10 anos, tenha uma nova epidemia?

Caio: Exatamente, isso mesmo. Ele é um vírus mutável, ele tem a capacidade de se modificar rápido e nessas modificações ele encontra um novo hospedeiro que não oferece nenhuma resistência, por exemplo o ser humano.

Asagol: Como o vírus é transmitido e quais são os sintomas? 

Caio: Primeiro vamos falar da transmissão. Ele é transmitido através de secreções. Secreções essas que podem ser provocadas pela tosse, saliva, ou pequenas gotículas que a gente nem enxerga. Quando a gente espirra também espirra secreções. Então, esse vírus está nessas secreções de uma pessoa infectada. Por isso a gente não pode ficar muito perto de uma pessoa que está com os sintomas porque tem alta probabilidade do vírus ser transmitido quando uma pessoa tossir, quando ela falar, quando ela espirrar e assim por diante. Em relação aos sintomas, quando você chega perto de uma pessoa que está apresentando, ou seja, ela está infectada com o vírus, apresentando os sintomas, se eu pegar, se essa pessoa transmitir isso para mim, depois, em média de 5 a 7 dias, podendo ser de 3 até 14, mas em média 5 a 7 dias depois, eu começo a apresentar sintomas. Então, a gente chama esse período de "período de encubação". É o período a partir do momento em que o vírus penetra no organismo e o período em que eu vou apresentar os primeiros sintomas. Quais são esses sintomas? Febre, tosse seca, dor de garganta, cansaço, dor no corpo e a pessoa vai paulatinamente apresentar um quadro de rinorreia, muitos espirros, muita febre. E ela, então, está apresentando a Covid. Covid é o nome genérico que a gente dá. Por exemplo, a gente fala sarampo. Sarampo o que é? Ninguém sabe qual é o vírus provocado pelo sarampo. Então na Covid, qual o vírus provocado pela Covid? É o coronavírus. Chamado hoje em dia de Sars-Cov-2.


Quais são esses sintomas? Febre, tosse seca, dor de garganta, cansaço, dor no corpo e a pessoa vai paulatinamente apresentar um quadro de rinorreia


Asagol: Qual o tempo de vida que o vírus fica fora do organismo?

Caio: Boa pergunta. Porque esse vírus tem uma capacidade de resistência muito grande fora do meio ambiente dele. Então, ele fica viável por algumas horas até mesmo alguns dias em superfícies, como por exemplo: papel, fórmica, lâminas, assoalhos, roupas, tecidos... Ele pode ficar alguns dias lá presente. Mas essa é uma boa notícia também. Depois que você passa álcool, num minuto depois você já está esterilizando, vamos dizer assim, esse local onde o vírus ficou. 


Ele fica viável por algumas horas até mesmo alguns dias em superfícies, como por exemplo: papel, fórmica, lâminas, assoalhos, roupas, tecidos...

Asagol: Hoje em dia nós já sabemos que existe um teste para o diagnóstico da Covid-19. Esse teste pode ser feito através do SUS? 

Caio: Ele pode ser feito e ele está sendo feito através do SUS. Só que é um teste relativamente sofisticado. É um teste novo, que requer uma técnica muito sofisticada, então não tem ainda a quantidade que seria necessária para a demanda que nós estamos tendo. Então, há restrição e há necessidade de você restringir o candidato que vai se propor a fazer esse teste. Hoje em dia, as pessoas que devem procurar médicos são pessoas que não estão passando bem. São pessoas que principalmente começam a apresentar sintomas de falta de ar. Uma pessoa que está com resfriado, começa a ter depois do quinto, sexto dia, falta de ar, vai até ao banheiro e fica cansada, a pessoa tem que procurar o serviço médico. Só nessas circunstâncias. E hoje em dia, a pessoa que é submetida ao exame, dada a escassez de testes, só vai ser feito o teste quando ela for internada. 


Hoje em dia, as pessoas que devem procurar médicos são pessoas que não estão passando bem. São pessoas que principalmente começam a apresentar sintomas de falta de ar.

Asagol: Portanto, se você está com sintomas de coronavírus, o recomendado é ficar em casa o máximo de tempo possível, certo? 

Caio: Perfeito. Isolado de outras pessoas.

Asagol: Doutor, agora voltado para o caso da nossa companhia, da ASAGOL... A recomendação feita por vocês médicas, pela OMS, pelo Ministério da Saúde, é evitar lugares fechados. Contudo, no caso dos tripulantes isso não é uma opção, porque eles estão fechados, dentro de um avião. Com isso, você tem alguma dica para eles? Como eles podem se prevenir? 

Caio: Olha, a primeira coisa é assim... Não há a necessidade de máscara. Não há necessidade de máscara. Quem deve usar máscara é a pessoa que está com sintomas. Essas pessoas sim! Elas tem que usar máscaras. Porém, no caso de avião, essa pessoa não vai viajar. Se ela está sabendo que está ocorrendo uma doença dessa no Brasil e no mundo inteiro, que apresenta sintomas respiratórios, ela dificilmente vai pegar um avião para qualquer que seja o local. Então, essa pessoa já está cometendo um ilícito. Ela não deve viajar porque ela está se expondo e expondo outras pessoas em risco. Agora, se for uma questão de vida ou morte, se é uma urgência e ela tem que viajar, então ela tem que por uma máscara. Desde o momento em que ela sai de casa até o momento que ela for dormir, ela tem que por máscara. Em casa, sozinha, só põem máscara se tiver outras pessoas juntas.


Quem deve usar máscara é a pessoa que está com sintomas. Essas pessoas sim!

Asagol: Quais recomendações médicas uma empresa aérea deve seguir?

Caio: No caso específico do avião, vocês tem que avisar os clientes, os passageiros, que não devem viajar se apresentarem qualquer tipo de sintoma respiratório.

Asagol: Em caso de uma pessoa que esteja demonstrando sinais de contágio e tenha que viajar. Quais são os procedimentos que os tripulantes devem seguir? O cidadão deve ser retirado de perto dos demais? 

Caio: Primeira coisa é pedir para usar a máscara. Isso é fundamental. Se essa pessoa teve que viajar por uma questão de urgência, era irrevogável, essa pessoa deveria ficar afastada das outras, sempre com máscara. O ideal é ela ficar longe das outras pessoas por pelo menos 1 metro, 2 metros de distância. E a tripulação deve pedir durante o início do voo: "Senhores passageiros, se alguém aqui estiver com problemas respiratórios, com febre, espirrando, tosse, por favor nos avise para tomarmos as providências". As providências, no caso, se a pessoa for muito negligente e ainda não estiver com máscara, seria fornecer a máscara para essa pessoa e pedir para ela sentar num local onde seja longe dos demais passageiros. Caso um passageiro seja detectado com os sinais, é importante orientá-lo também para que higienize as mãos na entrada e na saída dos banheiros, e passar álcool na maçaneta da porta, na torneira, na privada e em todos os lugares onde ele encostar com a mão. Deve haver uma boa relação entre a empresa e o passageiro para que ele não seja discriminado e também para que ele tenha a noção de que ele possa ser o transmissor de uma comunidade inteira.


Se essa pessoa teve que viajar por uma questão de urgência, era irrevogável, essa pessoa deveria ficar afastada das outras, sempre com máscara.

Asagol: Fala-se muito que o vírus possui alta infectividade, mas uma relativa baixa mortalidade, inferior àquela verificada em outros surtos recentes como o Ebola ou a própria SARS, por exemplo. Mas o que se tem verificado é uma intensa preocupação e mobilização da mídia e de toda a sociedade em torno do assunto. O senhor acha que se justifica ou talvez haja um alarde excessivo?

Caio: Aqui no nosso caso, no Covid-19, ele tem percentuais de morte que varia muito de país pra país. Se você pegar os casos de mortes na Coreia do Sul, por exemplo, é inferior àqueles que estão ocorrendo agora na Itália. Isso vai depender muito também das medidas implementadas pelos governos e a precocidade com que elas estão sendo tomadas. Agora, a gente pode levar em consideração que o vírus tem uma mortalidade baixa. Mas, em determinados grupos ele aumenta essa mortalidade e aumenta a morbidade. Quer dizer, a severidade do quadro. Então, nos idosos, é muito importante a gente preservar os idosos porque o maior grupo de risco são as pessoas acima de 60 anos. Essas são as pessoas que são as maiores vítimas do vírus e que estão morrendo mais hoje... Também pessoas que já tem alguma doença que provoca supressão na sua imunidade, ou seja, a pessoa já tem uma resistência, uma imunidade mais enfraquecida. Pessoas que tomam medicamentos que abalam a imunidade também... E assim tem uma lista longa que se chama comorbidade, que são pessoas que carregam consigo, por exemplo, diabetes, tem que tomar insulina, pessoas que fazem tratamento com câncer. Então, além dos idosos, as outras pessoas que têm alguma outra doença associada. Aí, a taxa de mortalidade aumenta muito nesse grupo de pessoas.


Isso vai depender muito também das medidas implementadas pelos governos e a precocidade com que elas estão sendo tomadas.


Asagol: Doutor, eu vi numa matéria que na China, pessoas que se curaram do coronavírus tiveram de novo os sintomas do mesmo. Existe alguma explicação? Há possibilidade de uma reinfecção? Certo estado de cronicidade?

Caio: Olha, parece que houve 2 casos só. E a explicação seria essa: que o vírus é muito mutável. Então, com certeza, as pessoas que tiveram duas vezes seguidas... São pequeníssimas as diferenças entre um vírus e outro. Suficientes, porém, para o seu sistema imunológico não reconhecer que você já teve um contato com ele. Então, é um outro vírus, muito semelhante, e pequenas alterações em função de mutações que se encontra entre um vírus e o outro. O mesmíssimo vírus não infecta duas vezes, mas um gênero muito próximo pode infectar duas vezes.


Asagol: Com essa resposta, me veio à cabeça... Por exemplo, o vírus mudou, certo? Ele tem uma "mutação fácil", digamos assim, para ficar mais fácil de entender. A vacina é feita específica para o coronavírus. No momento em que esse coronavírus tem uma pequena mutação, essa vacina ainda vale?

Caio: Não, tem que fazer outra. Porque se essa pequena mutação por suficiente para que o seu organismo não reconheça como já ter tido o contato com esse vírus, então você tem que fazer outra vacina. Porque você pode ser contaminado por esse outro vírus. Então, cada vacina é específica para um determinado vírus. Agora, se eu já adoeci do SARS-2, eu não vou adoecer de novo com o SARS-2, como eu disse. Eu posso adoecer de novo com outro SARS, seja o 3 ou 4, muito semelhantes a esse SARS-2. E assim a vacina também. A vacina do SARS-2 só vai funcionar com o SARS-2. Agora, pode ser que a vacina nos dê algum grau de proteção em relação a um outro vírus muito semelhante. Ela pode te ajudar a ter um resfriado mais brando, vamos dizer assim, mais leve, porque você já teve ou a vacina ou a doença do SARS-2. Então, se você tiver um outro vírus muito próximo, você pode se contaminar de novo mas "mais light", mais fácil, mais brando.


Não, tem que fazer outra. Porque se essa pequena mutação por suficiente para que o seu organismo não reconheça como já ter tido o contato com esse vírus, então você tem que fazer outra vacina.

Asagol: Qual a melhor solução que o senhor acha? Ainda vai ser a vacina?


Caio: Olha, essa é a ideal. Essa é a ideal. Só que a vacina, na melhor das hipóteses, só vai chegar entre nós daqui 1 ano e meio. Ou só vai chegar às prateleiras, vamos chamar assim, para a distribuição, daqui 1 ano e meio na melhor das hipóteses. Porque a vacina você não faz num estalar de dedo. Você tem etapas. Então vacina não nasce da noite pro dia. Fora isso, você vai precisar de mais de um bilhão de vacinas para vacinar a população. Você pode imaginar o que significa, primeiro, descobrir a vacina, segundo, embasar a vacina e distribuir a vacina para 1 bilhão de pessoas, com agulha, com a seringa, com frasquinho e assim por diante.


A vacina você não faz num estalar de dedo. Você tem etapas.

Asagol: Perfeito. Agora sim a última pergunta... Hoje em dia quase todo mundo tem um pet, tem um bichinho de estimação. Esse bichinho ele pode ser infectado pelo coronavírus ou não?

Caio: Não se sabe. Mas é recomendado, depois que você ficar brincando com o pet, ou melhor, a pessoa que está doente é melhor não ter contato com o pet. A que está doente é melhor não ter contado. Agora, se você teve o contato com o pet, se eu estou doente, tive contato com o ele, passar álcool na minha mão. Tanto é que existe uma recomendação, por exemplo, que se você sair com seu cachorro, todo mundo hoje em dia tem que lavar as mãos muito frequentemente. Toda hora que chega em casa tem que lavar a mão. E tem até uma recomendação também, que se você for passear com seu cachorrinho na rua, na volta você tem que passar álcool na pata do cachorro e lavar as suas mãos. Agora, se você me perguntar: "O cachorro passa? O gato passa?". Não tenho essa resposta.

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